BERMUDA E SHORT
Edgar e Inês visitam Londres,
a cidade dos sonhos de Edgar,
da juventude punk, God save the Queen,
dos boêmios nos pubs, do divórcio.
grita um turista bêbado no gramado do Hyde Park.
Pero yo quiero La Habana !
Replica Inês, sonhadora,
chamando a atenção de todos para o casal
de bermuda brim e short desfiado ex-calça jeans.
Até quando Cuba permanecerá Cuba?
Todo o Reino Unido continuará tal como está,
chato, intacto.
Além do que,
bermuda e short estão mais para a ilha caribenha,
Veradero, Santiago, La Habana ,
a música, o povo,
e é lá onde Inês está.
No Hyde Park,
somente seu corpo e seu short ex-calça jeans.
CAMISOLA
Remove devagar a maquiagem
do rosto acidentado,
identidade perdida em rugas.
Remove as presilhas e os grampos
que suspendem o penteado,
emaranhado de fios tingidos.
Remove os brincos,
primeiro o esquerdo,
um rubi em cada.
Despe-se inteira e se mira no espelho,
passa as mãos vacilantes
por todo o corpo áspero e disforme.
Relembra os amores,
as fragilidades, as fugacidades.
Veste a camisola de seda
e se sente envolvida como da única vez
em que foi amada de corpo puro.
Toma as pílulas,
alisa o lençol
e dorme o sono de sete décadas.
TOMARA-QUE-CAIA
O tomara-que-caia caiu,
folia na platéia de transeuntes.
Terá sido por força do desejo
e da curiosidade
dos que admiravam a italiana passar?
Ou terá sido por mero descuido
de Valentina,
mal acostumada à ousadia dos trópicos?
O rosto corado encontrou
sorrisos, excitação,
muitos vivas e assovios,
porém, o que não foi encontrado,
por ninguém,
foi a explicação, o por quê
dela colocar aquelas abundâncias
no tomara-que-caia mínimo,
de pouco pano,
que não resistiu e
caiu.
CALÇA JEANS
Doce é ver
o gingado das ondas
e imaginar
ter frente aos olhos
aquele balanço
ritmado e jeitoso
do quadril desejado,
bem modulado e armado
no blue da calça jeans,
azul e harmonioso
como as águas do mar.
Para o infinito azul partir,
como o saveiro em busca de pesca,
ir em busca de festa,
em alto mar se afogar.
JAQUETA
No bar Blue Suede Shoes
Valentina arranha seu português
made in Portugal.
Ela se expressa mal em português,
sotaque europeu em país tropical.
Explica que não é Valentina com os dentes,
é Valentina com a língua entre os dentes.
Fala algo sobre a origem da milanesa
que eu não entendo.
Comento do calor,
não tenho onde deixar a jaqueta.
Ela me diz “jaqueta em italiano é giacca”.
Sorrio tímido, comento que parece jaca, a fruta.
Jaqueta em italiano é estranho.
Segura me responde “ninguém me fale”.
VESTIDO
O corpo mergulha no cetim vermelho,
nu e perfumado do banho recente.
O cetim está como uma fina capa
a proteger os olhos do pecado – essa
falsa ingenuidade é parte do jogo.
Marcam o cetim os seios rijos,
que repousam na gravidade de Isaac,
tanto quanto as ancas, livres de castidade.
Ah, tudo isso nada seria
sem o olhar maquiado de gueixa.
Suaves como o mergulho
são as mãos aveludadas que retiram o cetim
v-a-g-a-r-o-s-a-m-e-n-t-e,
acompanhadas de beijos de batom
que sobem pelas pernas,
acabam em um longo beijo úmido,
misturam-se os batons.
O cetim no chão faz este de mar vermelho,
os corpos confundem-se,
imagem refletida no espelho.
TERNO
O louco dançava no fim de tarde.
Trajava um terno esburacado,
uma calça marrom desbotado,
uma gravata floral com nó cego.
Dançava e era gostoso de ver.
Um mendigo batia palmas,
mostrava seu sorriso desdentado,
seus pés descalços, o rosto sujo,
o terno sem mangas achado no lixo.
Três ou quatro se aproximaram,
olhavam sérios, desconfiados.
O mais sério também vestia um terno,
preto, bem cortado, um brinco.
Sapatos lustrados, gravata de seda,
uma pasta e um relógio dourado.
Mas seu olhar sério maculou-se de ira.
Aproximou-se do mendigo, do louco,
começou a gritar, a girar a pasta.
Tentava acertá-los e esbravejava:
“estão na merda, por que esse sorriso na cara?”.
O irado girava a pasta,
o louco dançava,
o mendigo batia palmas.
O fim de tarde começava a ficar interessante,
mais gente chegava, era um espetáculo.
SAIA
Ela girava leve,
parecia dançar no ar.
Despertava muita saudade
ao par de olhos castanhos chorosos.
Revelava o que pretendia esconder,
era um regozijo nefasto!
Ai, o aperto no coração
do par de olhos que a desejou,
a teve, a perdeu,
era como o da mão do gigante
que trucidou a ovelha indefesa.
Indiferente à dor alheia,
ela flutuava, voava, desatino.
Abusava da liberdade do ar.
CAMISETA
Sophia corre para não perder o ônibus,
o último ônibus da linha 62 via rodoviária.
Sophia corre e sofre.
31 minutos atrasada,
o relógio lhe avisa. Seu perfume evapora.
Ela inconscientemente relaciona a linha e o atraso.
O suor lhe escorre nas costelas e faz cócegas.
Do suor e do perfume exala um cheiro agridoce.
Edgar a imagina atrasada e suando,
finge ser o suor que lhe percorre o corpo.
As costelas, os seios, o pescoço, a boca, as pernas.
Ele prefere o suor sincero ao perfume falso e doce.
Espera tranquilo, quanto mais demora mais pressa,
mais suor, mais vontade, mais desejo.
O ônibus finalmente chega ao ponto.
Sophia entra, senta, se enxuga e se abana.
Edgar espera.
O ônibus para no sinal.
Sophia desespera.
O sinal abre.
Edgar imagina.
O ônibus para.
Sophia desce.
Edgar sente.
Sophia não toca a campanhinha, Edgar já está no portão.
Ela tenta explicar o suor, Edgar a beija, tropeçam para dentro,
sobem correndo as escadas,
ele lhe arranca a camiseta branca de algodão sem estampa.
Os dois transam sôfregos na sala, a camiseta amarrotada no chão.
CAMISA PÓLO
Camisa gola pólo verde-limão,
com um jacaré verde-escuro
abrindo a boca no peito esquerdo.
Edgar me corrige: é um crocodilo.
“Os crocodilos têm a fuça (sic)
mais pontuda e magra, entendeu?”.
Não importa, crocodilo ou jacaré,
continuará esbanjando virilidade
aonde quer que aquele rapaz
que a veste vá. Ele e o animal são viris.

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