segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

ELETRODOMÉSTICOS


LIQUIDIFICADOR

Para que tudo se acerte
e a semana comece bem,
Marcelle and your deep blue eyes
são mais que suficientes.
Ela tem todo o trejeito
que põe meu sorriso amarelo no mundo.
Tem também aquela pele morena,
banhada no sol, de veludo
e naturalmente perfumada.
Quando nos encontramos,
às escondidas,
somos dois desconhecidos
que se desejam há muito tempo,
como de fato fomos.
Não poupamos suor,
tampouco gritos de amor.
Às vezes fere,
é quando os estrondos
ecoam por toda a vizinhança.






ASPIRADOR DE PÓ

Inês conversando com o cachorro
parece uma louca.
Tenta lhe ensinar boas maneiras
de mulher de educação rígida.
Fala e se sente compreendida,
talvez até mais que por mim:
não me diferencio muito do animal,
em fidelidade e educação.
Vendo-a assim,
ao mesmo tempo séria e sorridente,
bela e amorosa, como sempre,
sinto que a amo, mas ela não me tem.
Tudo se desfaz lentamente,
areia descendo na ampulheta,
mas permanecemos.
O solilóquio continua no sofá,
eu os admiro, sentado no chão,
mas me preocupo
também,
terei que usar o aspirador de pó,
o sofá está coberto de pelos.






MÁQUINA DE LAVAR

No silêncio bucólico
dos corais mortos
da praia de Barra Grande
se amam Edgar e Sophia.
Ferem a pele nas pedras,
sugam as bocas salgadas
da água do mar que bate calma,
no ritmo do amor,
do sal e do sol.
Os corpos lúcidos
dançam inconscientes,
sargaço mar.




CAFETEIRA

Inês me olha.
Café te olho.
Inês me pergunta
quem é a dona do
perfume de cheiro
açucarado de mulher que
sabe o que quer.
Café te bebo e
te acabo. Boa desculpa
para levantar.
Inês me intima,
“não fuja do assunto!”
Cafeteira te ligo,
café te faço.
Voz calada.
Inês se irrita e me grita
“Edgar, me responda!”
Inês te tento um beijo.
Inês me bate a cara.
Inês te tento um abraço.
Inês me empurra,
empurra a cadeira,
empurra a porta,
se tranca no quarto.
Café te bebo em
goles longos e me queimo
e me ferro. Inês chora.




CONGELADOR

Quando o silêncio
enfim me disser
o que foi que perdi,
direi que soube, por mim,
que antes de todo o estardalhaço,
havia naquele espaço
algo de muito gelado,
que não se liquefazia,
não se deixava correr como rio.
Era gelo de pedra em cubo
impondo-se ao degelo.






FORNO

Em um ambiente fechado
depositaram todas as minhas moléculas,
todo o meu amor,
toda a minha fé.
Ofereceram-me ao erro, errei.
Tive febre, fui verão.
Enfurnei-me nas entranhas do silêncio,
até me tornar digerível,
ideal para ser servido em
quatro pratos,
quatro pedaços,
acompanhado de salada, farofa,
pimenta e molho inglês.






BATEDEIRA

Não tenho cara para
ser tudo que não sou.
Tenho perna para
saltar fogueira,
braço fino para
descer correnteza,
peito tísico para
tudo que me faz mal,
mas não,
não tenho cara.
Ademais,
insisto em ser o que sou,
clara de ovo batida em neve,
glacê.




  
TORRADEIRA

Quando Marcelle e eu
nos encontramos durante a semana,
o sexo tende a ser cronometrado:
vinte minutos,
para não comprometer o almoço.
Mas são vinte minutos para tudo,
um beijo quente,
as roupas depostas,
mãos e costas,
pernas, seios,
sexo – em cima da pia ou
em cima da mesa ou
em cima do chão,
dependendo da disponibilidade.
Em cinco minutos,
as roupas nos corpos,
penteado nos cabelos,
um beijo suspiroso,
o apito do alarme,
a previsibilidade que agrada.

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