segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

CORES



ROXO

O céu acorda roxo,
em tom vivo e sóbrio,
dois sóis irradiando desejos contidos.
Em um campo infinito de violetas
Inês tem flores nos cabelos e no regaço,
o corpo nu,
nas mãos duas pedras de ametista
refletem em seus olhos sua cor.
Uma brisa fresca desce os montes,
traz estrelas e um cheiro perfumado,
inebriando-lhe sexo, atiçando-lhe a língua,
manhã de mistérios.



CINZA

Poeira e dor de cabeça,
Sophia na cama dizendo coisas sem nexo.
A fumaça do cigarro subindo no ar
parado
é serpente a rastejar no nada.
Toda a transmutação da carne antes do sexo
encontra na ante-sala
a rinite alérgica,
falta de tesão,
de libido.
Incólume, só o desejo pela palavra:
“sou aquela que há de te seguir
– na cavernosa madrugada,
aquecer-te-ei o sexo,
homem carne viva”.



AMARELO

Quase eu soube na borda de
um George Orwell,
mais opaco em um Cyro dos
Anjos,
mínimo em um Honoré de
Balzac e em um Cabral de
Melo Neto, ambos da
mesma coleção,
todos dispostos na prateleira de
madeira envernizada.
Por pouco não aprendo em
cinco quadros,
embriaguei-me em
duas garrafas de rum,
senti como se fosse vivo,
excêntrico,
laranja-lima,
limão,
não sentia minha língua.
Preciso de boas escolhas,
saber por onde começar
nesse corpo bem delineado e jovem,
de formas humildes,
um quarto fechado,
apertado e mal iluminado,
cama de solteiro,
amarelo-amor.



AZUL

Abro os braços para um mergulho pesado
na imensidão azul-marinho dos olhos de Marcelle,
que não diz nada,
apenas aceita que eu me afogue, profundo.
Torno-me, então, alma,
flutuo no céu nu de nuvens,
coisa qualquer que se sente completa.
Sou, então, manto
a envolver Marcelle,
travestida de Maria,
que respira fundo e goza,
santa e manto sagrados,
safados,
religiosidade blasfema.



VERDE

A mata virgem abraça Sophia,
que é feita amazona,
guerreira destemida,
emprenhada pelo vento.
Por dentro, o inferno úmido,
por cima, o mar orgânico,
de folhas e troncos,
e, agora, de Sophia,
nua na margem do rio,
entre serpentes
que se perdem no seu corpo violento,
percorrem seus seios,
escondem-se em sua penugem selvagem.
São uma só, mãe e filha,
mata e Sophia,
guerreira e desbravada,
iniciada por seres místicos
nos segredos do amor,
orgasmo que ecoa entre as árvores,
espanta os pássaros.



BRANCO

O que se diz claro
é o invisível das cores,
infinito vazio,
cheio de mansidão.
Aquela calma que nos arrebata,
do cheiro de terra molhada,
de chuva que cai sem pressa,
do olhar a perseguir o horizonte,
descansado e sem grandes amores
que lhe acelerem o coração.
Todo o suor de quem ouve
uma voz suave que diz baixinho
“dorme, meu filho”,
um casal virgem que se ama tímido,
sem barulho,
uma morte sem dor no lençol puro,
véu da noiva.
  


LARANJA

Inês é laranja,
é tudo que me estremece,
toda falta que me sufoca,
é, também,
Inês me dizendo que
Cecília lhe disse que
nem tudo são sonhos,
mas tudo é vão,
inclusive os sonhos.
É laranja Inês que
não existe,
mas é uma presença absurda,
embora Cecília exista,
mas nunca a tenha encontrado.
É laranja,
é adocicado, às vezes,
gosto de fruta cítrica.
É sonho, é vão,
como o sol manso às sete da manhã
dizendo que o dia começará abóbora,
é epiderme que se confunde com cenoura.





VERMELHO

Corre gosto de pedra
de tinta viva vinho tinto
tinta de caneta esferográfica
cortina persiana caderno de
poesia e venta balança as
roupas no varal e ama
sexo quente em tarde de
sábado das férias de verão
gato miando às três da manhã
galo cantando às cinco e
quarenta e cinco da manhã para
menino novo acordar e ir estudar
homem assassinado com dois
tiros no rosto e o sangue a
escorrer luz do cabaré mulher de
cabelos curtos negros e crespos que
cobra dez reais por hora quatro
posições ser sem nome que admira a
lua em algum lugar desconhecido
antes das dez da noite pula
morros de sorte e de saudade e de
gozo faixa de pedestres grita alegre
ano que vem tem carnaval
espreguiça na espreguiçadeira dois
acordes de violão ah a cama e seu
lençol e tantas lembranças viva o
feriado de sete de setembro seja o
motivo que for máquina datilográfica na
cor que digita o ponto final.

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