SECO
Não entendo,
amigo,
não entendo mais nada.
O gafanhoto é de pedra,
seu cri-cri bate seco.
Maria Eduarda abre a porta,
sorri sem dentes,
faz de conta o metal,
estronda uma gargalhada
e se sente triste.
Bate seco da pedra,
gafanhoto tem coração?
Cadeira e controle remoto
pegam fogo de amor,
dedos lhes tocam e
puxam e
apertam,
são rodopios que batem seco,
são de metal e estrondam.
Mas ninguém vê,
enquanto eu vejo,
mas não entendo.
JANELA
Janela do quarto,
fuga sem saída.
Paralelas retangulares vermelhas
formam um retângulo vermelho
fracionado,
que exibe a janela,
um retângulo com um retângulo dentro.
Nesse retângulo de dentro,
três retângulos fracionados, inclinados.
Paisagem?
Muro feio, sujo, sem acabamento.
Um fio, um varal, um corredor.
De vida somente vultos e vozes.
Loucura. Será um manicômio?
Ou será essa a minha paisagem,
apenas vultos e vozes?
PORTA
Badulaque dependurado
na porta que tem meu nome
gravado a batom vermelho,
safado.
Badulaque que dei de presente,
por amor,
feito por um artesão colombiano
que me revelou seus mistérios
em uma cachoeira de Milho Verde.
Badulaque dependurado
pouco acima da marca do soco
que deu na madeira da porta,
no dia em que dei-lhe o presente,
por amor,
em que dei-me, também por amor,
ao seu corpo com suor de culpa.
A chave da porta dança em meus dedos,
olho para o desconhecido na escada
a me esperar,
reluto em colocá-la por baixo da porta,
mas pego o badulaque sem receio.
PESADELO
A lua se impõe alta,
no céu pálido e sardento,
abre a noite com versos de cimento
de homens mudos de tristeza.
Noite misteriosa na lua
de Vênus, onde há água,
ano astral, sol em Áries.
Eduardo me sussurra em um pesadelo
que o que não se pode ver é o invisível,
mas que não me assombra
o que não se pode ver.
A culpa é dos amores e do tempo,
Eduardo?
Responda-me em mais um pesadelo,
você que era concreto,
meio bicho, meio fera,
no fim, vapor.
UM DIA, UM NUNCA, QUANDO?
Ela ia, ia,
se partia,
mas não partia,
permanecia no mesmo lugar.
A apatia ganhava cor,
era laranja, gosto de fruta cítrica,
Inês permanecia.
Era forte como pedra,
escondia em si uma primavera
feita de areia, feita de sal,
Inês partia e permanecia.
Tudo a ela pertencia,
era um dia, um dia,
talvez um dia,
enquanto aquilo fosse conforto,
tal aquilo era nada.
FRONTEIRA
Não há cidade alguma
após esta linha que piso.
Sim, estou no limite
de tudo aquilo que é real
- olho para trás,
para o lugar de onde vim,
vejo arranha-céus e autos
cortarem o asfalto e o céu
como um estilete tímido.
Apenas tenho certeza
do que não existe,
até meu próprio suor
percorre meu corpo
como uma salgada mentira
- toco esperançoso a linha,
quero que minha mão
penetre como fantasma o chão.
Em um minuto dois sóis
invadem a cidade, derretem-na.
A morte da fala, das palavras,
todos os livros são apenas
dezenas de páginas em branco
- deixo meu corpo cair leve
no precipício infinito e branco
que se abriu depois da linha.
Lanço-me à verdade.
CHUVA
Iogurte de banana,
enquanto a chuva cai mansa.
Há dois minutos a sinto cair
para cima, chove para cima!
Traz-me a lembrança
da professora de português
ensinando pleonasmo,
gorda e sorridente,
parecia sempre feliz,
“é louca”, dizíamos.
Iogurte ou yogurte?
Leio o rótulo do pote vazio
“iogurte de banana”,
bem, esse, pelo menos, é com i.
Tão bom que pego outro,
retiro o ... lacre?
Não sei que nome dar,
tampouco como chama,
fica sendo lacre mesmo,
retiro-o e lambo-o.
Com uma colher aproveito
o iogurte e admiro a chuva
que cai para cima.
Por dois minutos choveu para cima,
agora chove em mim.
Chovem bananas em mim.

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