VIRGÍLIO
Não há nada, Virgílio
que não saibas
Todos os corredores
estão desertos
- como querias;
todos os nossos dentes
caíram
- e não foi culpa tua;
tu não és o poeta
tu não és poeta
para alívio teu.
Virgílio, nos beijamos nas escadas
antes de transarmos no corredor
e isso tu previste
antes mesmo de nos sabermos;
tu que és tão indiferente e frio
és, ao mesmo tempo, tão bonito
e isso tu sabias.
MOURO
Inventaram o que eu
não sabia,
inventaram o mar.
Um homem quase secular,
de nome quase errado:
Gerardo.
Tudo que há nele, não há em mim,
ele que é grandioso como o Atlântico,
o mesmo que cantou ver
os portugueses atravessarem.
Mas sou índio,
mas sou português,
mas sou negro,
não sei qual o meu lado na história,
talvez eu goste
dessa miscigenação toda,
esse calor ferro em brasa,
esse amor pelo sexo.
Quisera eu ter o talento que tinhas,
Gerardo,
e cantar a epopéia do amor-suor.
CLEÓPATRA
Egípcia,
mulher cornucópia de mistérios,
invades impiedosa os meus sonhos.
És jazida dos meus febris desejos,
balaústre do meu ego inquieto
e selvagem.
Dá-me a tua seiva,
planta erva água mortífera,
sabes bem o suor da blasfêmia,
és fêmea impiedosa,
impávido pecado.
Não me dás motivo
para um sono tranquilo,
és zumbido de mosquito
permeando meu quarto escuro.
Não se justifica a vida serena
sem teus braços e afagos,
alma branca, pele macia,
macia flor.
Souberas ser eloquente
e desbravar os mundos,
mulher destino fera,
hoje o horizonte lhe rega.
És o motivo para a sandice
dos teus amantes romanos,
enfeitiçados com o teu perfume,
o sabor do teu sexo,
o calor do amor à beira do Nilo.
Deixa-me tresloucado também, mulher!
Cleópatra deusa rainha,
sabes que és tudo em mim,
revela-me teus segredos de amor.
HELENO
Procedes do que sou, Heleno,
prevês o que seremos.
Tivestes poder para conhecer teu fim,
então diga-me, qual a libido da morte?
Somos iguais em suor e carne,
mas tu, como tua gêmea Cassandra,
transaste cobras, ouviste Apolo,
podes dizer o que me espera
além do sinistro maior,
que teu fim, pobre homem, já o sabemos.
Ofereço-te em troca, príncipe,
a paz das guerras,
o calor do sexo,
a desgraça dos inimigos,
o amor de Helena,
basta apenas que me digas
qual reino herdarei,
quando tornar-me-ei sombra,
se terei o amor da fêmea pálida
que me invade os pesadelos.
Sentimos uma letargia no sexo, Heleno,
quando somos negados.
Temos as pífias damas,
os pífios reinos de ninguém,
os invólucros dos nossos desejos mais ardis,
a frígida existência.
Como tolerar as certezas medianas, Heleno?
És inquieto por ter as respostas quando queres,
dê-me um pouco desse homem pervígil
por adivinhar tudo.
ELEGIA PARA FERNANDO
Sinto que se eu lhe dissesse,
Fernando,
o quanto temia a tua fúria,
se soubesses quão forte eras,
ririas de mim, dos meus medos.
Agora que és sombra ignota,
tua presença é brisa morna,
tua ausência mitiga o meu pesar.
Sim,
és luz turva e isso me entristece,
pois eras tão moço,
um rio desatinado,
mal sentiras o gosto da vida,
o fel da vida,
tornaste sombra em dia nublado.
Fernando, eras tão moço,
me punhas tanto medo,
restaste sombra em meus olhos,
fúria em meus olhos.
CASSANDRA
Avisa a todos dos perigos,
Cassandra,
avisa a mim.
Tens os dons das cobras e de Apolo,
tens também a minha confiança,
sei que não és louca.
Ah, Cassandra,
dize-me o que ouves dos deuses,
dize-me o que há por vir.
Estou à mercê da volúpia e dos devaneios
dos mortais - sou mortal como tu és,
compadece-te comigo!
Tenho todos os receios do mundo
e o Búfalo a soprar-me um bafo quente no rosto,
não vês que preciso de teus presságios?
Vivo como rocha a beira mar,
amedrontada com a fúria de Poseidon,
um gozo teu basta a tudo em mim,
bela Cassandra furiosa,
não vês?
NARCISO
Narciso, meu espelho é o mundo
quasimodesco. Mira meus traços
e admira-os no vermelho do metal.
Narciso, tu consegues me ouvir?
O inverno é um só e passa
no silêncio dos autos que correm na avenida,
ecoa no suor de quando nos amamos,
e todo ele é você mais belo do que eu.
O que te convéns no absurdo descrente
em nós dois, homens carne viva?
Ó Búfalo que me devoras o dorso,
dá por completa a brutalidade da tua existência
a Narciso que é cego,
ensina-o o dissabor das palavras
que nos fere o corpo em brasa,
corpo em brasa, macho meu.
Ó Narciso abre teus ouvidos,
eu sou você, beijemos o vento
que nos cospe verdades.
Ó Narciso és quem sou,
transemos as verdades cuspidas
e os medos que nos insultam.
Atenta-te Narciso, o gozo nos afoga.
BÚFALO NOTURNO
Quisera eu, Búfalo noturno,
ter a dor de dois mil megatons,
e implodir-me das dores
que realmente sinto.
Enxergaria, então, a ti,
monstro pantagruélico,
e te devoraria por dentro
com a força descomunal
de um sussurro.
Deglutir-te-ia ainda vivo,
lentamente,
selvagem e vermelho como uma ferida.
Você que me brinca, aberração,
viveria para o sempre
acorrentado e amordaçado.
Tua imagem dar-me-ia sono,
expô-la-ia no meu estranho festival.

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