PLÁSTICO
O grande moço do século vinte e um está vindo,
sim, vem trôpego ao som da nova música do novo
milênio, dessa década – houve um prelúdio?
Talvez soubessem nos passos,
a jaqueta é de couro ou talvez de brim, o cabelo bagunçado
- esquece, as roupas são sempre as mesmas,
são as mesas, ali no canto, aqui em baixo, em cima
(profunda obsessão pelo desnudo).
Sim, tudo está à mostra e à venda,
o amor, olha ele de volta, agora em promoção, 100% off.
A música do novo milênio é feita por sintetizadores,
não há mais poesia, há o que se escreve e desvaloriza
e há também o que se canta – disfarçado em sintetizadores
o amor, esqueci-me dele.
Há um totem de roupas das décadas de 80 e 90 e anos 2000
admirando-me, homem enclausurado no medo de mim mesmo,
fechado por paredes e fotografias de anônimos que amo tanto,
sempre há amor por tudo que não se sabe, ou se sabe,
mas é o paradigma do pré-século veinte y dos, XXII.
O amor não serve para as poesias, as poesias não servem (para si
próprias) porque existem os sintetizadores e tudo que não se sente
Dói tanto tomar tantas drogas, o amor é mais uma delas,
bem aqui, nessa cadeira azul, de espaldar reto, tão démodé.
LETARGIA OU PODE SER QUE SIM
Pode ser que sim,
grita enquanto frita dois ovos.
Pode ser que sim,
repete a televisão com antena improvisada,
no volume máximo, chiando.
O grande poder da dicção
(o grande desafio ao olhar para baixo: dicção).
Pode ser que sim, cristão,
mas para você, não!
Berra um agnóstico a um evangélico que o aborda,
enquanto o berrador caminhava, distraído.
Tem alguém aí? Fredericooooooooooooo,
- fazendo um amplificador com as duas mãos no rosto,
berra alguém para um andar acima dos ovos fritos.
Pode ser que eu diga sim,
responde a mulher apaixonada ao namorado apaixonado,
futuro noivo, futuro casamento apaixonado,
futuros ovos fritos, e toda a letargia do sexo.
A magnitude do amor é a dor (todos nós sabemos
da finitude do amor);
pode ser que sim, que eu deixe de amá-lo amanhã
à tarde, por volta das três horas.
Para tudo. Por que tudo sempre retorna ao amor?
Retornemos. Quer que eu ponha o sal nos ovos? Essa a letargia.
Não há nada mais absurdo, catastrófico e misterioso que o fim
e o início dos romances. A televisão está ligada? Põe no oito.
Ei, tá me ouvindo? Pode ser que sim.
NEANDERTHALENSIS
Cara de sono por dormir cedo e acordar tarde (sente-se mal
por acordar em pleno século veinte y uno depois de dormir
por tanto tempo, cinquenta mil anos?). Magnífico homem de neanderthal,
musculoso ser de fala lenta e nasalada, de vocês herdamos o mundo.
Temos sintetizadores, extasy, LSD, e a moda pós-anos 80,
veja que magnificência, tome um pouco para você.
Vista-se, brilhe e dance,
querem-no nos museus, nas boates e em todos as bocas de fumo,
querem-no em tudo o que há de muito seguro e em trezentas toneladas
de livros, toma, leia Hilke, Baudelaire, Pound, Camões,
ouça a voz de Deus, ouça Wolfgang Amadeus Mozart,
experimente uma de nossas mulheres, selvagens como você,
loucas atrás de gozo e poder.
Recupere o tempo perdido, participe das orgias romanas,
venha por aqui, Calígula está a lhe esperar,
mas antes que vá, peço-lhe, mate Jesus Cristo, já que não é a
imagem e semelhança de Deus (é meu irmão, mas sou homo sapiens,
sou a identidade do Deus criador, que antes de nós criou vocês,
consegue sentir a ingratidão da de-semelhança?). Seus pares
se foram há vinte nove mil anos, estão a sós, mate-o.
1700 OU SÉCULO XVIII
Ah, sim, é um vulcão
que vem de dentro com uma força libidinosa.
LI-BI-DI-NO-SA,
experimente dizer essas silabas lentamente,
agora aumente o prazer de tal pronúncia.
Vem assim de dentro e explode em sorriso,
ah, quase posso sentir o nada e seus derivados.
Tente a coisa tal que cobre a pele em arrepios
- perdendo toda a eloqüência.
Contrai os músculos, movimentos obsoletos,
girando como um cubo.
O gládio cortando a glande do glabro,
por onde seguir?
Onde está a eloquência?
Ah, quem me dera ser um poeta romântico,
boemia, boemia, cante-me o fausto das suas noites,
e me faça morrer de amor – faça-me ao menos amar;
ontem à noite era meia-noite de sol,
não havia lua, era tão bonito, pensava que iria explodir.

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