FUGA
“Essas bolhas que você tem
nos dedos das mãos e dos pés,
têm uma justificativa: ácido úrico”,
era o que Inês dizia,
fruta ácida, eu, despreocupado.
Perdia os dentes, brilhava o céu da boca.
Quem sabe tornei-me filho
da Angola em 1888,
ou do Cabo Verde, no mesmo ano,
ou talvez tenha me tornado filho
do Brasil muito antes,
em 20 de março de 1662,
que de Portugal, sempre fui,
e enfim tenha me libertado
das presenças absurdas,
das bruxas fesceninas,
dos gozos, dos desejos,
de tudo que não me consola.
Eu sentia algo triste
quando Sophia me olhava e sorria.
O dia mal começava, mas tudo era suor,
quase não tinha sol, tinha picnic e grama,
atrás de uma Igreja, embaixo de uma árvore,
o corpo tão conhecido esperando o bronze,
enquanto eu, aplicando meus remédios,
fugia daquele lugar, daquelas mulheres,
mas elas fugiam também.
Havia um imenso gramado verde-marrom,
nele depositava as minhas esperanças
e lembrava que – sou tudo aquilo
que me falta, e mais,
sou também o óbvio do presente,
a dor na carne, renitente.
aquele que ri alto,
palhaço sem fantasia,
entrecortada a gargalhada
por soluços e silêncio de solidão.
Concluía no silêncio que a culpa
era das cartas jamais entregues,
que bom é o Rio de Janeiro,
onde o calor é intenso,
as roupas são mínimas,
os corpos são malhados,
a vista é maravilhosa,
cenário ideal para o amor.
Então, o que me enchia de esperança
era um sorriso doce,
um suspiro cansado,
depois de um orgasmo simultâneo.
Tudo era verde-marrom enquanto eu fugia.
SOBRAS
Agora que o que me restou
foram as sobras do que eu nunca tive,
posso, finalmente, olhar sem espanto
as mentiras sentidas na carne, no suor,
aos poucos deixadas para trás.
Não que não haja
forma erudita para dizê-las
- ela existe,
porém não me incomoda a simplicidade.
Não me têm
os sonhos que já sonhei,
as roupas que já vesti,
os amores que já perdi,
as drogas que já usei.
Olho sem espanto como o dia acaba
e recomeça: é como todo o constrangimento
pelo fingimento de Andy Kaufman.
Acontece que ele não se importava,
o meu câncer é outro,
não há mantra ou Filipinas,
ele não é mortal,
embora faça com que tudo se perca.
Espero os dias,
espero que passem rápido,
que eu não os sinta.
As sobras do que eu nunca tive,
as chaves do apartamento
que esperanço explodir junto comigo.
Tudo o que restou, Andy Kaufman,
levaram embora, minha mulher, minhas crianças,
tudo o que eu nunca tive.
O seu câncer era raro e o matou,
o meu me perpetua em nada.
SANGUE
Maria Eduarda,
que não consigo ver mulher,
mãe jovem e linda,
irmã ainda menina
pouco tempo atrás.
Sempre sorridente,
por valor ao sangue
não recusa meu pedido de favor,
empresta-me, sem prazo,
o quanto preciso para ir para a Espanha
- finalmente meu tempo espanhol.
Serão verdades os encantos cantados
por Murilo e João Cabral?
O calor do povo de Almodóvar me excita.
Arrumo as malas e o coração,
o fim dos meus medos é o meu começo.
SANGUE II
Mas a mudança
não me tira o negrume do rosto,
tenho meu castigo,
independente de quem e quantos
eu tenha por perto.
Em tudo permanece o ridículo
da nossa solidão,
e a ansiedade, ouvinte, é uma agravante,
nem mesmo um riso frouxo consola.
Corpo aberto, coração fechado,
para tudo de estranho entre nós
- somos nós mesmos tão estranhos.
Mire-se no espelho
e descobrirá que não existimos,
não enxergamos a nós mesmos,
a única coisa que há é a nossa carne
e o suor de ninguém.
Vou para a Espanha,
porém permaneço em mim mesmo,
estou em todo lugar,
estamos em todo lugar,
e ela sempre está conosco.
Sou sangue
e tenho os olhos abertos
enquanto o gozo me afoga.
WOLFGANG
Saúdam-se o sol e o vento
na guerra estranha entre
alívio e incômodo.
Alcançam dois corpos nus,
entregues ao relento
em uma das praias arenosas
de Huelva,
selvagem Costa de la Luz ,
selvagem Espanha.
Longe das lembranças
dos amores às vezes relembrados
com o sufoco da saudade,
longe do português
com sotaque dos trópicos,
talvez a fuga venha-lhe
com sabor de vício, confutatis,
traga-lhe o canto amargo
do Requiem em ré menor
de Wolfgang Amadeus Mozart.
Recordare, Jesu pie,
quod sum causa tuae viae,
ne me perdas illa die.
Lembre-se, também, Edgar,
que você próprio foi a causa
da sua peregrinação,
não se perca naquele dia.
Mas se perde nos braços de mais uma,
espanhola a quem não se mostra,
o gozo lentamente o afoga.
NU OMEM
Hárduo álito pecado,
é a certeza de si,
corpo nu frente ao espelho,
os músculos frágeis e disformes,
as tatuagens escondidas,
as cicatrizes que contam histórias
e amores e dores da carne.
É a certeza de si,
faminento de nada que não se vê,
alter que não se revela,
sombra morna que sofre histórias.
A música vem de longe,
lenta triste silenciosa, talvez sincera;
ábitos habsurdos pecaminosos,
a chuva confundindo-se com a música,
can you hear?
A voz triste e lenta,
do you remember?
That night at context
making up shit
like we were animals
we made no sense
no sense
we had no sex
O corpo é somente
uma fortaleza,
facilmente destruída
e reconstruída
e destruída inúmeras vezes,
mas não faz sentido
nem ao corpo marcado e afogado.
ÓPERA
Daqui de onde estou
posso ouvir o ruído do trem
que lentamente arrasta-se
sobre os trilhos
- é como o ruído dos meus dentes,
do movimento horizontal do maxilar,
da mordida errada,
da mordida no ombro.
Daqui do escuro
posso sentir a noite,
fria e úmida, e ver
que o silêncio da voz
é uma ópera da culpa,
da culpa de Franz Kafka.
É como a culpa que há em mim,
não musicada.
Os dentes rangem,
estive com eles ontem,
a sós; estamos com o trem essa noite,
por alguns minutos.
CATALUÑA
A mão desliza lenta,
transa os fios de cabelo
molhados de suor,
odor de mulher.
A dor intensa nos dentes
- incomoda -
faz com que se sinta vivo.
Deterioram-se aos poucos
em noites de sono rangido.
Os pensamentos estão no latim,
lembra que nesse idioma não há artigo:
narcissus viri
uña ubique,
por toda Cataluña.
O silêncio é um repouso
- inquieto,
leve respirar dos seios ao lado.
Trás a carne,
terror de tempos,
século veinte y uno e tal.
Não domina o espanhol,
she has no name,
mas não importa,
é o gozo quem vos fala,
é a solidão quem vos assola.

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