Bebemos a última das duas garrafas de vinho que tinha em casa, mas ainda eram nove horas da noite de sexta-feira e Eduardo estava comigo, tínhamos muita coisa para botar fora, ele descendia de judeus poloneses, e como é sabido, judeus adoram desabafar em uma taça de vinho, do mesmo modo como os carros correm na avenida dois andares abaixo da janela do meu apê/kitnet, do nosso apê/kitnet, meu e de Inês, é Eduardo. Edgar vá lá, minhas pernas não aguentam mais caminhar, toma aqui o dinheiro, compre mais vinho, Gato Negro, se tiver, Cabernet Sauvignon, pelo amor de deus, não traga vinho seco, sabe que odeio vinho seco, falando nisso, onde é que Inês está? Ele sentado no meu sofá, no nosso sofá, com os sapatos sujos a calça suja a barba suja suado, deixa-me feliz por imaginar o escândalo que Inês faria se visse aquilo. Eduardo andava diferente, cheio de hábitos novos, tomando o meu lugar. Começou a cheirar pó e falava coisas estranhas sobre suicídio, morte, quanto mais vinho o fizesse beber menos tempo teria para os vícios e para os devaneios da mente perturbada, comprar vinho isso o que iria fazer. Meu velho, não te deixo aqui só, não. Vamos, se não aguentar te carrego nas costas, vai que Inês aparece por aqui, vamos. Saber fazer silenciosamente, Edgar, silenciosamente. Tudo perde o sentido, fico aqui. Deixo-o, cansado, no sofá nosso, vou em busca de mais vinho. Evito pensar nas mulheres que me surram os neurônios, Inês está fora a dois dias não faço ideia aonde. Um vento forte e seco agita as árvores, tento manter a cabeça distante, alguém me grita Edgar! É uma peça do vento, o que Sophia estará fazendo agora? Eduardo me espera, qual nada, já deve ter se rendido às drogas, a mercearia está quase fechando, entro a tempo de comprar duas garrafas, o dinheiro se esvai aos poucos. Sophia deve estar em casa pensando em mim, me desejando, se masturbando, ou não, pode ser muito convencimento da minha parte e ela está com outro na cama que visitei dias atrás, gemendo quente, o sexo úmido, o suor a lhe percorrer o corpo e Eduardo em casa se drogando até apagar e dormir no sofá, me arrumar problemas com Inês. Ora essa, Inês é quem deve estar com outro na casa de outro abrindo as pernas e montando-o, dizendo que ele a possui de forma como nunca consegui, tampouco intentei, enquanto Sophia está em um lugar sabido pensando em mim, imaginando eu rasgando-lhe a roupa, a transando em cima da mesa da copa, sedento com saudade acumulada. Inês com outro dizendo que não sou nada, um idiota desempregado e Sophia me desejando, chamando o meu nome, os dedos úmidos e quentes e Eduardo se drogando, morrendo aos poucos deitado no meu sofá e eu Edgar com duas garrafas de Gato Negro Cabernet Sauvignon nas mãos, no vento quente e seco, poeira entrando nos olhos. Chamo um táxi, passo o endereço da casa de Sophia, ela deve estar me esperando, eu a ouço gozar o meu nome.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
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