ÂNGULO OBTUSO
Ser identidade,
mulher inteira,
assim como Inês é.
Ser macho-fêmea,
entender os sentimentos,
sentir o corpo.
Abrir as pernas em ângulo obtuso,
saber qual é a dor do suor alheio.
Ver por outros olhos,
órbitas,
o amor que deveras sinto, sentia,
por Inês ou Sophia.
Desvendar a libido,
perceber por quem é maior,
desejo violento,
sentir Marcelle.
Saber escolher,
me ver mulher,
mulher que se sente,
transar ser Valentina.
CUBO
Peço benção aos mais velhos,
peço licença ao sutiã.
Rezo o terço,
rezo os lábios, os seios.
Ave Maria, cheia de graça,
seios morenos que me pertencem,
venha a nós o vosso reino,
seja feito o nosso gozo.
Ah, italiana de Roma,
do amor, de Deus, enlouquece-me!
Preciso de mais dúvidas
nesse cubo em que vivo?
Qual o som dos seus ganidos de amor?
Por onde eles ecoam?
Ai, meu Deus!
Diga-me quanto pecado há
em toda essa tumidez
que lhe direi quanta fé há
em nosso sexo.
OBLONGO
Sabia que os sonhos
têm algo de cimento,
quimeras que se sente,
peixe-elefante.
Têm o mistério dos números,
eu sabia,
matemática misteriosa,
quimeras,
peixe-coelho.
Sabia que têm
um equilíbrio elástico,
algo que desfaz o corpo,
e tudo de oblongo,
mais pela palavra.
Quimera-antártica,
bolha disforme,
produto dos amores,
eu já os sabia.
CÍRCULO
Giramos,
agora estávamos de volta
ao ponto de partida.
Apesar da volta,
sei que tudo o que o tempo toca,
transforma,
tal qual Midas e o ouro.
Desejar como Midas,
livrar o tempo desse
poder,
voltar tudo ao início
puro,
tornar ao amor tenro por
Sophia,
ou mesmo antes dela
nascer.
TRIÂNGULO
O que me enche
de esperanças, Edgar,
é não imaginar
um orgasmo simultâneo
em um ménage à trois
com essa Sophia.
Um orgasmo doce, Edgar,
como nunca me proporcionou,
amante de si mesmo.
Os segredos morrem,
não os faça vir à tona.
Deixe-me aqui,
nesse sofá que juntos compramos,
nessa casa em que juntos entramos,
nessa sua confusão,
nessa minha solidão.
Deixe-me aqui, Edgar,
e saia, vá fazer o que quiser,
só não me traga esse suor de
culpa.
Não me traga culpa alguma,
Edgar.

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